Sejamos todos culpados!!

Certa vez, numa Grécia distante, um homem foi condenado à morte por crimes cometidos contra a sociedade de então.
Não era a Grécia de hoje, com sua bancarrota econômica, mas uma Cidade-Estado que poderia dizer-se berço da Filosofia. Lá, os homens gregos buscavam entender os segredos da vida, as coisas que estão entre o céu e a terra, e outras mais, que estariam em outros mundos.
Alguns desses homens se imaginavam sabedores de todos esses mistérios, e por isso não admitiam contrariedades, nem mesmo apreciavam que suas teorias fossem colocadas à prova. Diante disso, um ateniense duvidava que esses homens possuíssem tamanha sabedoria, e saiu à procura de um deles que se mostrasse não completamente sábio, mas que lhe dissesse ou mostrasse uma sabedoria superior à dele próprio, o que não aparentava ser muito, pois este ateniense afirmava ter apenas uma certeza na vida, a de que nada sabia.
Sócrates, em sua pesquisa buliu com todos os dogmas da sociedade de então. Questionou as imposições e manipulações que a religião da época praticava na sociedade, introduziu novas formas de cultos, e por fim, convidou a juventude a fazer o mesmo.
Incentivou os jovens a questionarem, aprenderem, interpretarem por si mesmos os mistérios do mundo, pois dessa forma, somente dessa forma construiriam autonomia, para não serem presos a nenhum manipulador de pensamentos. Foi condenado à morte por duvidar dos deuses e incentivar a balbúrdia entre os jovens. Morreu envenenado, mas convicto de que o compromisso à liberdade de pensamento era valor inestimável àquela sociedade.
Hoje em dia, tropeçamos em especialistas, analistas ou “sabetudos” de plantão. O que diria Sócrates ao entrar no facebook e ver quantos tecladores de plantão tem a receita perfeita das soluções mais complexas da humanidade!!!!, Querem mesmo é teimar, apontar, ridicularizar e principalmente impôr sua ideia (ideia própria?). Sem construir argumentação  engalfinham-se em discussões sem rumo nas redes sociais. Provar a verdade absoluta ou impor o que pensa (pensa?) parece ser a ânsia desse tempo, mas sempre com pensamentos superficiais e sem fundamentação alguma… . Esse preocupante cenário coloca-se em nossa sociedade há tempos, as pessoas repetem padrões sociais e não procuram estabelecer ou buscar o seu entendimento da realidade. Contentam-se com as manchetes dos sites de notícias ou com os compartilhamentos das redes sociais. Não há preocupação com a busca do entendimento, da construção de uma opinião própria elaborada, muito menos com o exercício da busca do conhecimento. No máximo vociferar algum grito da moda. Trata-se de uma característica da nossa época, gastar o menor tempo possível com a construção do conhecimento (leitura, livros, jornais) e dedicar o maior tempo possível com passatempos e quebra paus que não suportam dois contra argumentos sem partir pra agressão. Isso seria fruto da inabilidade intelectual ou do momento que contagia o analista político de teclado que descobriu a guerra fria semana passada?
Em Platão talvez encontraríamos alguma ajuda…. mas se não se lê jornal, imagine A Apologia de Sócrates…
Mas se observarmos o horizonte com um pouquinho de boa vontade veremos que este ano é de copa do mundo e de eleições, e aí a esperança ronda nosso pensamento! (será?).
Então, que assumamos o compromisso de Sócrates! Vamos convidar todos para pensarem por si próprios, questionarem absolutamente qualquer assunto que causar desassossego, e construir com as nossas mãos o conhecimento próprio, forjado pelas ferramentas da argumentação, da criticidade e do diálogo sem imposições. Jovens ou não, todos temos o compromisso de incentivar a busca e construção da liberdade de pensamento, onde prescrições não terão espaço.
E por isso, sejamos todos culpados!

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Os Mosquitos de Outubro

A epidemiologia é de fato uma ciência dificílima. Eis que num estado governado por um médico há alguns bons aninhos, senão bastasse as epidemias rotineiras de Dengue, agora São Paulo também padece de Febre Amarela. Há ainda o economista e governador de Minas Gerais que também apanha do mosquito…No Rio de Janeiro, o pé grande já registra 7 mortes pela doença. Até mesmo de vacina morreu gente na Terra de Santa Cruz…
Nos debates acalorados das eleições que se aproximam, enquanto se discute que destino devem ter os recursos da saúde, ou quais metas foram alcançadas em uma numerologia inútil ao espectador, as doenças do século XIX ainda estarão mostrando o tamanho da política brasileira.
Em outros estados, capitaneados por outros profissionais também há Dengue e Febre Amarela, além de Cólera e Gripe. Também eles padecem da ignorância epidemiológica. Num país onde se morre de fome e de pragas da época de Napoleão, a vergonha parece que não incomoda governantes, candidatos e eleitores, num tempo em que todo mundo entende de tudo e de qualquer coisa.
Quem paga o pato são os macacos dizimados pela ignorância popular, pois o povo, sem acesso as aulas de Biologia, não entende que nossos primos também são vítimas da febre do momento. Bom então a educação também é um problema? Então é uma questão de burrice como bem disse nossa Ana Maria Braga? Pois é… além de questões biológicas, a efetividade das nossas escolas, seu material didático e preparo dos professores também deve ser um ponto a ser refletido, pois afinal com 5% do PIB destinado à Educação, não se está chegando longe… Vamos discutir liberdade de gênero e ensino religioso? Vamos sim, mas com qualidade ética, sem relegar os demais assuntos pertinentes à escola, e sem colocar à fórceps um ponto de vista, seja ele qual for. Não nos esqueçamos que o mosquito, o vírus e o cloriforme alcançará ele ou ela, cristão ou ateu.
Entre governantes médicos que não conseguem controlar uma doença erradicada nos anos 50 (do século passado) e apartamentos e sítios sem dono, o cenário político e salubre do país parece não prometer muito. Se da Serra do Navio até Santa Vitória do Palmar, ou se você preferir do Oiapoque ao Chuí, a política brasileira sofre de algum mal, já nossos mosquitos vão muito bem obrigado!
Em Outubro teremos eleições… talvez alguma coisa irá mudar, mas penso que os mosquitos continuarão os mesmos.

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O Rio que está em mim

Que diferença terá as águas do Senna e do Danúbio? Será o Tejo irmão do Douro? E o Amazonas buscará mesmo o mar ou foge dele?
Os rios mudam de cor, de cheiro e de tamanho conforme eu olho pra eles. De acordo com meu coração, com meu estado de espírito, o rio se torna maior, mais cheio, mais frio ou mais imenso, sempre em acordo com o brilho dos meus olhos. O homem às vezes sente-se grande, importante, insubstituível, e então, o rio ganha características de riacho, de ribeirão. Mas se esse homem sentir-se menor, apequenado pelas mazelas da vida, o rio abre seus tentáculos e o engole de repente.
Com a tristeza, muda de cor, fica cinza, às vezes negro, às vezes frio. Congela os olhos e aperta a respiração. Fica silencioso como as praças vazias. Faz sangrar o coração. Mas se a alegria está nos olhos do homem que o espreita em sua margem, terá o rio uma cor intensa de verão, águas frescas que convidam os pássaros a cantarem e uma imensidão mansa, que convida o homem feliz a estar mais feliz. Será companheiro do momento.
Quando imaginamos um rio, pensamos no rio da nossa infância, pois aquele estava sempre alegre, sempre barulhento como um bando de pardais, sempre a nos abraçar com suas curvas e a convidar-nos para um banho de tarde. Será preciso força para manter este rio vivo na memória do homem que busca manter-se otimista, inabalável, pois os nossos dias teimam em manter o rio amargo, cinza, quieto. Rios serenos, como o Tamisa, no inverno, levam-nos a refletir, pensar e repensar as coisas do mundo e as vontades perdidas. É preciso cuidado para não se perder nestes momentos e ser engolidos pela correnteza, pois ainda que pareça manso, o rio poderá reservar alguns balanços em qualquer curva.
Alguns instantes da vida faz com o que o homem busque o rio, busque a quietude de sua contemplação, e então este rio poderá ser alegre, azul, barulhento, ou caso o momento peça resignação, o rio se mostrará quieto, tímido, de ouvidos prontos para escutar as lamentações do homem que busca em suas águas a paz perdida.
O homem procura o seu rio, pois entende que este o levará no oceano, e uma vez solto no mar, o vento da liberdade vai brincar com seus olhos, vai convidá-lo voar, a desprender-se do medo e da vida sem sabor. O rio levará o homem a soltar suas velas, a buscar o brilho perdido. E então, o encanto esquecido será lembrado nas curvas e no cheiro daquele rio. Do rio da lembrança de uma infância que espreita o homem, que o olha, que o encoraja a viver com mais leveza, e com mais confiança no improvável.
Este rio, tão procurado, que corre entre pedras e árvores, entre pássaros e chaminés, poderá ter a beleza que procura o homem, mas apenas ele não o levará adiante. Enganar-se-á o homem que buscar do lado de fora o caminho para a liberdade, pois o rio que caminha para o mar está dentro de todos nós.

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O mundo será sempre do tamanho dos meus olhos

Ontem viajar 150 quilômetros era uma grande aventura, hoje ir à Praga tornou-se empreitada de uma noite. Será o mundo, um lugar menor?
A velocidade de cruzeiro de uma carruagem do século XIV é do tamanho do passo do cavalo. Com seus solavancos e sem airbag, deslocar-se entre uma capitania e outra era coisa para corajosos, ou quem sabe necessitados. O Físico de Noah Gordon, por exemplo, um jovem médico que sonhou cursar a universidade de medicina, chegou à Pérsia em dois anos, pois foi à cavalo. Fosse hoje, um médico atravessaria o Oriente Médio em algumas horas.
Já o Concorde que vinha vindo do estrangeiro, como nos conta Belchior em “tudo outra vez”, chegava ao sertão a 2000 km por hora, o que oferece ao feliz homem moderno a possibilidade de cruzar o mundo em alguns cochilos.
As velocidades das viagens têm diminuído, ao contrário da velocidade da vida, que tem aumentado. Instrumentos de localização e mapas fazem com que o homem não preste atenção no caminho. A ânsia de chegar tira o sossego da jornada, e faz com que todas as viagens fiquem do mesmo jeito, demoradas, por mais rápidas que tenham se tornado.
Se as distâncias diminuíram deve ser porque o mundo ficou pequeno, pensa o homem de hoje. Nesse ritmo então, na próxima esquina já encontraremos um chinês, ou uma girafa, não importa. Importa é que o mundo diminui, para caber na cabeça do homem moderno, um dominador preguiçoso. Tal como o homem de tempos atrás, o homem do século XXI quer o domínio, mas dessa vez sem grande sofrimento, sem grandes problemas. De preferência na ponta dos dedos, através do seu smartphone.
Diminuir o mundo é condição importante para o homem que quer dominá-lo. Fica mais fácil dominar algo que conheço inteiramente. Se o mundo tornou-se objeto do homem, ele precisa ter limites claros, e de preferência pequenos, fazendo a manutenção deste domínio possível. Tudo passa a ter o tamanho que eu quero que tenha. Pequeno, limitado, seguro.
Mas engana-se o homem que imagina um mundo que vem diminuindo, seja em distâncias, seja em tamanho. O mundo sempre foi do mesmo tamanho. Grande para uns, minúsculo para outros. O mundo será do tamanho dos olhos do homem. Do tamanho da sua vontade de vê-lo. Alguns homens buscam o horizonte com empolgação de criança, pois sabem que o espanto nascerá das novas experiências e maravilhas a serem descobertas. Outros homens se amedrontam, desconfiam e tecem teorias de que não há nada além do horizonte. O mundo não poderá crescer mais do que suas diminutas cabeças, pois se assim acontecer não conseguirão entendê-lo, dominá-lo.
Ao ver vir vindo no vento o cheiro da nova estação, me desassossego, me preparo para o novo, me encanto com o mundo imenso que se abre à minha porta a cada desafio.
Se as distâncias diminuíram não foi porque os caminhos se encurtaram. O mundo está do mesmo tamanho, do tamanho dos olhos do homem que o vê.

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A paz de si mesmo

E de repente ela se desintegra como a poeira foge ao sentir o vento.
O barulho, o sinal, o movimento, enfim, qualquer coisa que a arranhe, nos trás inquietações e desconforto. Tão buscada e nem sempre tocada, a paz possui valor de ouro, já que mesmo ele, sem ela, não terá valor.
Os dias se gastam, o silêncio se torna ensurdecedor, o balançar das árvores ou o ruído do mar se tornam insuportáveis se a paz de si mesmo não estiver presente nos pensamentos do homem, que a sonha, mas não constrói. Que a flerta, mas não conquista.
Se o inferno são os outros, como nos ensinou Sartre, a paz deverá ser parte do sujeito que a quer. Mas buscá-la requer peito de remador, paciência de samurai. Buscar significa construir. Construir uma carapaça intransponível que protege e fomenta o equilíbrio do pensamento. A paz de si mesmo surgirá por dentro e trará consigo elementos de luta, para que se fortaleça o espírito em busca dela própria como fundamento da vida.
Então, terá tanto trabalho o homem que busca a paz de si mesmo, que ele vai se imaginar um corredor de fundo, um maratonista ao meio da prova, que não quer e não pode voltar, mas também não enxerga a linha de chegada. Estivador extenuado que sofre vertigens ao olhar a altura do navio, e sem forças, ainda permanece no porto, em busca do seu objetivo. Se estes querem a linha de chegada ou descarregar o navio, aquele quer a paz de uma brisa de Maio, e isso lhe custará tanto ou mais trabalho.
Para aquietar o espírito será necessário força de gigante, energia de comporta. E o homem que busca a serenidade precisa ter a força para essa construção, para essa busca, que pode demorar uma vida inteira.
Porém, se a paz de si mesmo chegar cedo, o enfrentamento será pela sua proteção, para mantê-la viva, presente. E se perdê-la no caminho, o homem ficará preso à tormenta, e isso lhe custará dias, que lhe vão gastar anos, que lhe levará a vida.
A liberdade requer compromisso consigo próprio, valentia de apaixonado. O construidor de sua paz não se apequena diante do desafio, nem se entrega ao marasmo da rotina. Ao contrário, procura coisas, refaz ideias, muda olhares e busca paixões, na intenção de quebrar uma falsa paz que se instala disfarçada de sossego, mas que na verdade nada mais é que comodismo e medo da vida.
Conversar sem companhia será hábito para àquele que a constrói, que a mantém. Terá este homem, o de paz consigo próprio, aparência serena, às vezes até frágil, possuidor de feições inquebrantáveis, que lhe carregará a vida sem peso. Terá ele um mundo margeado pela pressa de vivê-lo, e nada mais. O pensamento livre será companheiro de caminho do homem, e este homem tocará as coisas da vida com a serenidade de um homem em paz. Em paz consigo próprio.

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O Desassossego

O desassossego que José me falou quando estive na casa dele, em Lisboa, me persegue.
Não exatamente o dele, que não é exato, que não pode ser exato… mas o meu, que nasceu lá e que também não tem forma, que também não descansa.
O que nós temos em comum, José e eu, quase nada, apenas eu concordo com o que ele fala. Ele diz que o que escreveu serve para desconsolar, para incomodar, para despertar o pensamento, que fatalmente inebria, empurra, aperta, desassossega.
Os dias passam, as semanas chegam, os anos se vão, e por aí buscamos a distância do desassossego, sem pensar nele, sem pensar em nada. A rotina preenche o tempo e o objetivo deverá ser ou estar sempre ao alcance das mãos. Mas, ainda assim, poderia ele caminhar ao nosso lado, o desassossego. Não como um inimigo, mas como um parceiro que incentiva, que desequilibra, que salta no abismo.
A enfrentá-lo, ao tentar resolvê-lo, ele cresce, nos engole. Mas não somos digeridos, somos lançados de volta à rua, à insônia, ao embrutecimento necessário para entendermos as questões da vida, as perguntas que ao invés de nos oferecerem respostas, suscitam novas dúvidas, novos incômodos.
Este desassossego não tem cara, e também não tem fim. Ao evitá-lo desprezando-o, fica-se preso a ele. Mesmo sem percebê-lo ele estará lá, inquietando o mais insensível dos homens que se permitir ao menos um minuto para observá-lo, senti-lo. Homens que gastam os seus dias com os casos comuns de trânsito, de dinheiro e convenções sociais que pensam controlar, e assim se tranquilizam com um sentimento de estabilidade e calmaria, ficam aterrorizados com o desassossego.
O outro homem, o desassossegado, que desassossega-se de propósito, procura entender as razões do mundo, dos homens, da filosofia, de Deus, e assim vive em constante movimento de busca, e isto o torna cada vez mais indócil, selvagem.
Mesmo os indóceis, mesmo os homens com olhos de Hemingway, olhos indomáveis, nem esses vencerão o desassossego. Mas esses caminharão livres de outras amarras, estas sim insuportáveis. Os grilhões que Platão se refere em sua República, que obriga os homens à imobilidade e à ignorância, são amarras que deixam as pessoas sem a possibilidade de se desassossegar. E este homem preso entende que toda sua vida, existência e pensamento, se resume à um mundo apequenado pelos limites dos seu olhos ou braços. Não permite que o pensamento dance como um Baryshnikov, ou voe livre como pardais.
Mil vezes o desassossego das perseguições sem sucesso das questões da vida, do que a imobilidade do conformismo bovino, diário, de sempre.
A liberdade de pensamento é condição do caminho do homem, já que só com ela haverá sabor, cor, tamanho, enfim… só com a liberdade de pensamento haverá caminho, pois sem ela não há vislumbramento de andar, de voar.
O mesmo José me disse em outra tarde, que às vezes, para se mudar uma vida é preciso uma vida inteira. Mas uma vida inteira de busca, de caminhadas… de desassossego.

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